Muitas vezes gosto de estar sozinha. Gosto do silêncio, do “fazer o que me apetece quando me apetece", do sair pela estrada fora e explorar lugares e sensações. Saborear. Tudo. Aproveitar cada pedacinho da tarde, seja numa esplanada à beira mar, na estrada, ou em casa. Com um copo de água, um galão morno, ou um copo de vinho (e que bem que sabe - mesmo sozinha - um belo copo de vinho – no sofá!). Cantar alto pela casa ou falar alto no supermercado, queixando-me dos preços (e passar deste modo por maluca, só! na minha cabeça, porque ninguém liga realmente para o que se passa à sua volta). Andar a pé. Correr. Tentar fazer exercício e não o fazer, sentindo-me frustrada e voltar a tentar fazê-lo (ao invés de realmente fazê-lo). Sentir o sol, sentir a chuva. Sentir o vento (o de sempre... forte ou rarefeito, companheiro de sempre). Dançar. Fotografar. Dançar. Escrever. Tudo (porque não) sozinha.
Também gosto de estar acompanhada. Muito. Gosto da partilha, da boa conversa, da cumplicidade que não se explica por pensamentos ou ações (apenas). Gosto dos sorrisos dos outros e de sorrir (ou rir à gargalhada) com o seu contágio, dos interesses intelectuais ou pontuais e dos afectos. Do calor dos abraços. Do calor. Dos abraços. Dos gestos alheios. Gosto do amor que se partilha, que se dá e se recebe. Do retorno. Mas gosto de poder sentir-me plena, (e desse modo, mesmo que assim tiver que ser) mesmo que não acompanhada.
A Solteirona não é propriamente uma ermita (muitas vezes parece, mas não o é). Um ser humano perdido no mundo e sem ninguém... Muito pelo contrário. Não o é e foi-se construindo (ao longo dos anos) de amores que a acompanharam como os mares e as marés; ora suaves ora revoltos, algumas vezes de paixões que pela sua majestosa intensidade acabaram por nunca se materializar no tempo. Sempre se ergueu e respirou com os ditos afectos e partilhas...Muitas... Mas também (muitas vezes) os melhores momentos foram passados a sós, sozinha, e quando nunca, curiosamente se sentiu só. Acima de tudo, pelas circunstâncias de todas as experiências da vida, aprendeu a sentir prazer nos momentos em que, sozinha, consegue ser mais ela. E reconhecer-se como tal. Não, mais uma vez minto. Não aprendeu.
No fundo sempre fui assim, sempre falei comigo mesma em pensamentos que por vezes se lançavam em alta voz para fora de mim sem quem ninguém lá estivesse para ouvir. Desde pequena sempre me entendi a mim mesma e aos meus sentidos e sentimentos a sós, mesmo que nem sempre os compreendesse ou soubesse realmente lidar com eles. E sempre procurei primeiro em mim as respostas às perguntas vindas de fora. Nunca realmente me consegui vergar à personalidade de outros ou à vontade do ser socialmente suposto, mesmo que o contrário aparentasse (não seremos muitas vezes o opostos de nós mesmos também?). E do mesmo modo enquanto me ocupava em o ser, sozinha, sempre estiveram por cá esses seres magníficos, grandiosos, infinitamente transcendentes à minha infinita gratidão, por serem maiores do que eu mesma e no entanto sem me dar conta, tão parte de mim. Os irmãos de alma, da mente, do corpo. Os que mesmo longe no espaço ou no tempo permanecem aqui. Sempre presentes. São retorno de mim mesma. E lembram-me de voltar sempre a mim.
Na minha anterior profissão tive oportunidade de conhecer muitas pessoas de origens diferentes. Idades e contextos sociais diferentes. Experiências de vida e educação. Muitas delas, sobretudo mulheres, muitas vezes confidenciavam-me que nunca conseguiriam, por exemplo, viver numa casa sozinhas, quando para mim essa realidade sempre me apareceu como possível e normal. E foi. E sempre foi bom! Até à data (e cá está! não é por acaso que me intitulei por aqui como a “Solteirona” – não é assim que se classifica alguém que gosta de ser o que é, só ou acompanhada?).
É certo que sempre quis (e quero!) ter uma família e compartilhar as vidas (as que existirem) e dias e outros sentidos com outra(s) pessoa(s). Um companheiro, filhos, netos, quem sabe... Mas nunca realmente vivi em função desse desejo. Desde muito cedo sempre me fui suficiente, mesmo em alturas em que emocionalmente não me senti como tal. Mas no fundo, a realidade é que de uma forma ou de outra sempre compartilhei a vida com outros. Sozinha mas nunca só. Afinal as palavras do titulo também são reversíveis, e os sentidos mesmo que dispersos pelos tempos e espaços sentem-se sempre.
A minha mãe diz-me (e sempre me foi dizendo) muitas vezes que a solidão custa com a idade, e acredito que deva ser difícil mas não me recuso a viver a vida, de que forma seja. E a maior solidão que até à data senti, foi rodeada de gente.
Sou grata pela vida que tenho, mesmo com todas as dificuldades, pelas pessoas que “tenho” na minha vida, pelas que passaram, pelas que, certamente, virão. Espero (e ao mesmo tempo temo) apenas uma coisa: não me perder na imensidão da vida que existe em mim, e que vem de mim, (enquanto só) e de todos os que me perfazem sempre, com o seu caminho cruzado ou enleado ao meu. Quem sabe um dia a Solteirona passe a solteirinha... e daí?... Mesmo que tal não aconteça quero ter prazer em ser. Só isso. Até lá, fiquem muitíssimo bem. ☺


