A solteirona não tem filhos.
Não carrego fraldas, biberões, bonecos, livros
com desenhos e cadernos com lápis de cor. Não passeio com frutas e papas em
frascos de vidro, nem panos ou babetes, cremes de assaduras, chapéus, mudas de
roupa, meias e sapatinhos fofinhos de
tamanhos pequenos (pela descrição, quem
tem o papel heroico de mãe já percebeu que não, não tenho a noção da realidade
maternal e do que se carrega na mala quando se sai pela rua num breve ou longo
passeio com um filho – ou filhos - pela mão ou pelo carrinho). Não trago comigo
nem chupetas nem toalhitas de bebé. Não. Minto. Na minha mala reside, nalgum
canto escuro e longínquo apenas ao alcance de várias revoltas de mão na mala, uma
embalagem de toalhitas de bebé!
E assim
entramos no universo dos mil e um quilos que carrego diariamente no espaço mais
ou menos reduzido e com alças para colocar ao ombro.
Sim, carrego e carreguei durante anos o peso
do mundo nos ombros. Não falo do peso dos indesejados “dias cinzentos” (quando o são) e das mil e uma dificuldades e agruras da vida ao
longo dos dias, meses, anos, das mortes diárias, dos desaparecimentos, dos
desgostos do coração, das doenças e vícios nocivos à mente, à alma e ao corpo, mas do peso de uma mala cheia de coisas absolutamente indispensáveis ao meu uso MAS que,
curiosamente nunca ou raramente (realmente) lhe deito as mãos. Há alguns dias
saía com um amigo do sexo oposto (aquela espécime que na sua generalidade parece-me
agora que é (foi) suficientemente perspicaz para perceber que devemos carregar
connosco o presente das coisas e não as coisas que por ventura poderemos
precisar num futuro próximo ou no meu caso e a julgar pelas coisas que
transporto comigo na dita mala de “mão”, num futuro mais longínquo, seja daqui
a uma semana, um ano, uma década...) aproveitando
o ar fresco da natureza e para isso
deixei a minha mala no carro sentindo-me livre, literalmente e fisicamente livre,
abrindo os braços de par em par, qual cena cinematográfica já muito utilizada
em diversas ocasiões por diversas pessoas,
suspirei fundo e gritei: “fogo! (não me recordo se a palavra dita tenha
sido realmente esta, mas adiante), por que raio uso eu uma mala tão pesada. Sempre!“
(como se a liberdade fosse afinal um gesto simples: o de deixar de usar uma
mala pesada aos ombros. E provavelmente até o é). Ora vejamos: para que preciso afinal de
TANTAS coisas na mala? Chapéu de chuva,
lenço para o pescoço, farmácia, excessivos produtos de higiene, chaves de casa,
do carro, do correio, do cacifo, telemóvel, leitor de música, carteira com
todos os mil e um cartões e dinheiro, óculos de leitura, óculos de sol, uma
lanterna, caderno e canetas, livro, documentos diversos, lenços de papel, as
tais toalhitas de bebé, e nos dias em que em sinto mais resistente
(fisicamente, registe-se) máquina fotográfica, garrafa de água, perfume, tablet,
frutos secos, bálsamo para os lábios,
etc. etc. etc. Muitos eteceteras.
O curioso de tudo isto é o facto de que a
Solteirona não pretende que a vida seja feita ou vivida com base nos “eteceteras”
que carrega consigo mas no que é essencial (mesmo que o mesmo vá mudando,
conforme as minhas circunstâncias, necessidade, desejos...). E o essencial não
está nas coisas que carrega na mala mas no que carrega dentro de si (pronto, e
cá estou de novo no discurso sensitivo). Dizem que mulher prevenida vale por
duas mas a Solteirona prefere neste
momento ser una e plena ao invés de sobreviver em dualidade com uma prevenção da qual não
sabe sequer porque e para a qual se deve prevenir. E pretende ser minimalista, o que quer que seja que isso
queira dizer – tema de texto a escrevinhar mais tarde (também não pretendo ficar dia após dia cada vez mais corcunda). E assim a Solteirona
gostaria de trocar, com bom grado, os pesados e desnecessários “eteceteras” que transporta
na mala por outros bens que lhe sejam bem mais úteis e que lhe tragam a liberdade
(quer de peso, quer de sentido) à sua vida, mesmo que essa liberdade possa ter também um outro encargo (e quem sabe um ou outro biberão) a suportar. É um dos objectivos do dia. Simples, sem
complicações e porventura fácil de concretizar. Veremos ... Até lá, fiquem muitíssimo
bem ;).

Nunca gostei de usar malas (principalmente à noite). Desequilibram o corpo!
ResponderEliminarE por consequência outras coisas. Lembrei-me muito de ti ao escrever este texto ;) beijinhos grandes com saudades.
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